Tio, tio, tio: começou o Pedala Zezinho!

Foram semanas de planejamento, reuniões e madrugadas viradas para o primeiro dia do Pedala Zezinho começar oficialmente no sábado que passou.

Pode parecer muito pouco tempo para produzir um evento que se propõe a arrumar bicicletas, ensinar mecânica, debater mobilidade, doar bicicletário e tudo isso no Parque Santo Antonio, no extremo sul da capital paulistana.

Aqui no lado direito dá para ler que o Aromeiazero é uma “associação privada de pessoas.” Pois bem, são quatro pessoas: um educador físico, um advogado, um designer e um publicitário. Para se ter uma ideia do tamanho das diferenças, as áreas de atuação mais parecidas são publicidade e design. Nós articulamos tudo, dedicamos muito do tempo que cada um pode disponibilizar, já que somos todos voluntários e temos nossas vidas e trabalhos “normais”.

E não dá pra fazer um post “Primeiro dia de Pedala Zezinho” sem falar dos voluntários, das voluntárias e da receptividade incrível de todos os moradores do Parque Santo Antonio e imediações do Campo do Astro. Vamos à reconstituição dos fatos.

Quinta-feira à noite, faltando menos de 48 horas para sermos recebidos por centenas de crianças e bikes, a situação era deliciosamente caótica: tínhamos 2 mecânicos voluntários confirmados, um protótipo de rack, ferramentas e literalmente uma dezena de peças. Estresse administrável, riscos calculados, mas um leve desespero pairava no ar. Ok, um de nós estava dando com a cabeça na parede de desespero, mas é caso crônico de ansiedade, então melhor deixar para lá.

Sabíamos que as coisas iam virar assim que saímos do Mão na Roda com o contato de quatro voluntários: Silvia, Willian, Gabriel e Felipe. E mais: o Mathias havia liberado, numa super-express-extraordinária-sessão-de-votação, articulada entre chaves de boca e movimentos centrais teimosos, três racks profissionais para nós. Para completar, a Aline, do Pedaline prometeu que dispararia para todas as 60 listas de bike que está inscrita, nos blogs que edita e que estava pensando em deixar a mãe que veio visitar para ir conosco para o Capão no sábado às oito da manhã. Agradecemos muito tamanho sacrifício e conseguimos convencer a Pedaline a dar a devida atenção à sua progenitora.

Outra coisa boa: todos os cicloativistas com quem conversamos já sabiam do Pedala Zezinho. E-mails, Facebook, Twitter, blogs e o boca-a-boca deram conta do recado. Ninguém disse não, e esperamos todos os que disseram sim nos próximos finais de semana.

Agora só faltava a lista de peças e suprimentos para reposição. De cabos e conduites, à querosene e estopa seriam comprados na sexta-feira. Aliás, toda a verba para compra dessas peças vieram do Japá Pedalá, um jantar japonês organizado e preparado pelo Aromeiazero e que levantou cerca de 700 reais entre 20 e poucos grandes amigos. Na sexta-feira de manhã, com a lista na mão, fomos até a Hernani Bicicletas, referência em todas as bicicletarias que visitamos para apresentar o projeto. Depois de duas horas, saímos com caixas recheadas de pedais, câmaras, manoplas e ferramentas.

Na noite anterior ao Pedala Zezinho, ficou combinado de irmos cedo para lá. Montaríamos as estruturas e seguiríamos o planejado para organizar o evento e botar para pedalar o maior número de crianças. Mas antes de dormir, preparamos com a Carol e a Jessica mais de 50 deliciosos e nutritivos sandubas. Afinal de contas, não dava para garantir que as sensacionais coxinhas de frango da Dona Raimunda dariam para todos. Aliás, segundo um dos voluntários, especialista na iguaria, essa vizinha do Campo do Astro solta fritinha na hora ”a melhor coxinha da vida e do mundo”.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Chegar ao Campo do Astro e encontrar meninos e meninas esperando com uma hora de antecedência o início das oficinas foi de arrepiar. Assustou um pouco. Ali caiu a ficha, quando um toquinho de gente te puxa pelo braço e pergunta: “Tio, tio, tio, você vai mesmo arrumar a minha bicicleta?” Sim, pelo menos hoje esse menino vai ouvir um sim.

Montamos as barracas. Estruturas pesadas, mas resistentes, emprestadas pelas Subprefeituras do M´Boi Mirim, Cidade Ademar e Campo Limpo. Nessa hora deu pra sentir o engajamento da turma do Campinho. O Zezinho veterano, Giovanni e o Tio Saulo da Casa do Zezinho já estavam lá para ajudar e fizeram toda a diferença, enquanto o Zezinho Muller registrava tudo em sua câmera fotográfica? Além dos valentes toquinhos de gente, que não se intimidavam com o fato daquela estrutura medir o dobro do tamanho dele. “Tio, tio, tio, deixa que eu carrego”. Mas para quem cresce ali, talvez as intimidações sejam bem diferentes.

Chegam os primeiros mecânicos de bicicleta. Sim, a dupla Felipe e Gabriel vieram pedalando da Vila Madalena até o Pedala Zezinho. E dez minutos depois já estavam com um dos meninos desmontando a primeira magrela do dia.

Não eram dez horas e o circo estava armado. Literalmente. Uma fila enorme de crianças e suas bicicletas, ou pedaços delas. Uma passada de olhos e sabíamos que o trabalho seria grande. E uma coisa era certa: peças não teríamos ali, como o pedal infantil amarelinho de uma DMX, que se alguém souber onde vende, mande um e-mail, por favor: contato@aromeiazero.com. Começamos a triagem, as pesquisas, as crianças foram entrando, mudamos a fila de lugar, desenhamos com a ajuda do engenheiro e voluntário de mecânica Ronaldo Monteiro uma pista com cal e tudo parecia bem.

O advogado Giovanni Falcetta, que trouxe uma magrela em doação para o Projeto, mal chegou e já assumiu o comando da pistinha, ”tirando” o tempo da molecada que tentava de todo o jeito bater o recorde da pista. Palmas para o Elias que com 31,4 s.

Aliás, o desenho da pista no campinho com cal foi marcada pelo responsável do Campinho um super voluntário que não lembramos o nome, mas fica mais um obrigado.

Na fila, apareceu um cara mais velho: “Trouxe a bicicleta da minha filha para arrumar. Mas também sei mexer um pouco, se precisarem de ajuda.” Pronto, já tinha falado demais: o Baianinho ficou o dia todo com a gente, arrumou a bicicleta das filhas e de metade do bairro.

Ao mesmo tempo, o Ronaldo, engenheiro experiente se deliciava com pneus furados, já que tinha concluído o desenho da pista. Outra ajuda indispensável!

Mas aquela empolgação inicial perdeu os limites e uma hora depois o campinho estava numa anarquia que até certo ponto era bonita de ser ver: bicicletas para todos os lados, uma fila de crianças e jovens querendo ser atendidos, mecânicos voluntários rodeados por um batalhão de olhinhos querendo saber como deixar a bike tinindo. Jessica e Joana, as voluntárias que estavam responsáveis por fazer as entrevistas para nossa pesquisa estavam preocupadas com a quantidade de bicicletas em pedaços que entravam no Campo do Astro.

Não existe uma fórmula pronta. O trato é aprender com o Pedala Zezinho, e nessa hora fizemos isso valer. Em minutos, com a ajuda da fita de isolamente generosamente cedida pelo pessoal do Tela Brasil, redesenhamos o processo, organizamos um pouco o caos, mudamos as barracas de lugar e, depois desse primeiro pit stop, rodamos a tarde inteira.

E tivemos uma grande notícia: agora que as coisas estavam mais organizadas e com mais crianças esperando, um novo pelotão confirma que vem pedalando com uma carrocinha cheia de ferramentas pela Ciclovia da Marginal: Hélio Neto, Rodrigo “Suíno”, Picachu  e as presenças internacionais do italiano Francesco e da espanhola Sarai. Ainda apareceu o Cristian, educador da Casa do Zezinho, que apesar de estar apaixonado pelo projeto, não se conformava como havíamos organizado aquilo tudo.

Ainda tivemos o reforço inesperado do Gilson, morador local e pintor de ofício, que apareceu atrás de uma bike para ir trabalhar e acabou por ajudar a consertar diversas bikes, fazendo a alegria de muitas crianças da comunidade.

No final do primeiro dia a outra dupla de voluntárias: Paula Albano e Paula Vieira já sabiam muito de mecânica só por conta da triagem. Já temos uma lista grande de peças que faltaram para trazer na semana que vem e milhares de ideias para melhorar o Pedala Zezinho.

Ter colocado mais bicicletas para rodar, construir uma pistinha de cal ou atender um pai que prefere chegar atrasado ao trabalho do que não arrumar a bicicletinha do filho. O Aromeiazero e o Pedala Zezinho continuariam sendo só um rascunho de guardanapo de restaurante se não fosse essas pessoas e outras que ainda vão aparecer até o dia 24, quando faremos uma grande pedalada de encerramento. E como diria a Camilly: “Tio, você vai, né, tio?”

ps.: Em tempos de intensa patrulha politicamente corretas, o Aromeiazero, a Casa do Zezinho e todos os voluntários repudiam qualquer tipo de trabalho infantil e pessoas que se acham velhas para pedalar.

7 thoughts on “Tio, tio, tio: começou o Pedala Zezinho!

  1. Pingback: Eu Vou de Bike – Bicicletas, Lazer e Transporte Urbano » Conheça o projeto Pedala Zezinho

  2. Parabéns para vocês, pessoas, parebéns de coração,se envolver de corpo nos faz se envolver de alma, O que se faz assim, nesse bom impulso de integração, a si mesmo se está fazendo também. Consertar bicicletas é na aparência só isso, mas tem discretamente permeado a criação de outros sentimentos para os dois lados. Se posso somar mais alguma coisa a iniciativa, é que aprofundem o vículo humano com esse pequenos, daí nasce o nosso próprio futuro, estamos todos de passagem aqui.
    Grande abraço

    Márcio Campos

  3. Maravilhoso o trabalho de todos vcs, fico muito feliz com o carinho de todos pela nossas crianças ….bjs a todos.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s